Não posso me deparar com algum teólogo falando de Dostoiévski sem postar…
"De fato, na era moderna, o sofrimento dos inocentes tornou-se o fundamento do ateísmo (Georg Büchner). Dizia-se que a única justificativa para Deus é que ele não existe (Stendhal). Diante dessa irrupção verdadeiramente diabólica do mal, não se seria obrigado a negar Deus em nome da maior honra de Deus (Odo Marquard)?
Muitas vezes, falar de Deus também é difícil para aqueles que creem em Deus. Mesmo eles se encontram frequentemente em uma noite escura da fé, na qual lhes faltam as palavras diante da desgraça interminável e do sofrimento injusto no mundo; diante dos duros golpes do destino e das doenças dolorosas e incuráveis; diante do horror das guerras e da violência. Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, que, assim como outros, experimentou muito sofrimento em sua própria vida, escreve em seu romance Os Irmãos Karamázov sobre uma criança que um proprietário de terras mandou despedaçar por sua matilha de cães diante dos próprios olhos de sua mãe. Ele afirma que uma injustiça tão terrível e o sofrimento de uma criança não podem ser compensados por algum desfecho feliz no futuro. Por essa razão, devolve seu bilhete de entrada no céu."
- Walter Kasper. Mercy: The Essence of the Gospel and the Key to Christian Life. Cap. I, seção 1.
"De fato, na era moderna, o sofrimento dos inocentes tornou-se o fundamento do ateísmo (Georg Büchner). Dizia-se que a única justificativa para Deus é que ele não existe (Stendhal). Diante dessa irrupção verdadeiramente diabólica do mal, não se seria obrigado a negar Deus em nome da maior honra de Deus (Odo Marquard)?
Muitas vezes, falar de Deus também é difícil para aqueles que creem em Deus. Mesmo eles se encontram frequentemente em uma noite escura da fé, na qual lhes faltam as palavras diante da desgraça interminável e do sofrimento injusto no mundo; diante dos duros golpes do destino e das doenças dolorosas e incuráveis; diante do horror das guerras e da violência. Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski, que, assim como outros, experimentou muito sofrimento em sua própria vida, escreve em seu romance Os Irmãos Karamázov sobre uma criança que um proprietário de terras mandou despedaçar por sua matilha de cães diante dos próprios olhos de sua mãe. Ele afirma que uma injustiça tão terrível e o sofrimento de uma criança não podem ser compensados por algum desfecho feliz no futuro. Por essa razão, devolve seu bilhete de entrada no céu."
- Walter Kasper. Mercy: The Essence of the Gospel and the Key to Christian Life. Cap. I, seção 1.
“Não há, naturalmente, um paralelo exato entre a Igreja e Cristo. Nele, uma natureza humana está unida à divindade em seu próprio ser, a pessoa preexistente do Verbo. Além disso, os atos que Cristo realiza por intermédio de sua natureza humana são, no sentido mais estrito, atos de Deus, os atos humanos de Deus. Jesus Cristo é absolutamente sem pecado e deve ser adorado também em sua própria humanidade. Não é assim com o elemento humano da Igreja. Esse elemento existe separadamente enquanto humano e está ligado a um princípio divino apenas por uma união de escolha, promessa e aliança: vínculo majestoso e de imenso poder, que serve à santidade da Igreja, mas não torna a própria Igreja sem pecado nem digna de adoração divina. Os Padres do Concílio de Basileia agiram equivocadamente ao ajoelhar-se às palavras do Credo ‘E numa Igreja una, santa, católica e apostólica’, como era costume fazer ao Incarnatus. A união de aliança entre Deus e sua Igreja deixa à liberdade humana uma autonomia não apenas moral e psicológica, mas enraizada no próprio ser; cada membro individual permanece sujeito à possibilidade de cair, embora a totalidade seja protegida dessa queda pela garantia divina da indefectibilidade.
Por outro lado, Deus, o Verbo divino ou o Espírito Santo, conforme o ponto de vista adotado, não está separado da Igreja. Não está unido a ela em seu próprio ser, nem se limita a contemplá-la do alto do céu: comprometeu-se com ela por suas promessas e pela aliança que estabeleceu. É nesse ponto que a posição dualista se equivoca. Deus é fiel às suas promessas dentro da Igreja. Recordam-se facilmente as passagens evangélicas que o sustentam: ‘Sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela’; ‘Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos’; ‘Não vos deixarei órfãos: voltarei a vós’. Recorde-se ainda a promessa de nosso Senhor a respeito do cumprimento, pelos apóstolos, de seu mandamento de batizar, de celebrar a Eucaristia e de perdoar os pecados. A Igreja é forte, coluna e fundamento da verdade, santa e santificadora de seus membros, somente em virtude das promessas a que Deus é fiel e dos dons que prometeu e concede infalivelmente.”
— Yves Congar. Cristo, Nossa Senhora e a Igreja. Cap. II.
"A pesquisa moderna desvendou os pormenores complexos desse sistema de pensamento [isto é, o gnosticismo]. Nele se postulavam as gnoses, uma série inteira de seres emanados da Divindade numa sucessão sempre decrescente, como intermediários entre Deus e o homem. Assim, de um lado, a relação humana com o próprio Deus não podia ser de união direta, mas apenas de união com um desses intermediários; de outro, esses mesmos intermediários eram entidades espirituais cuja existência se situava fora e além do curso comum da história humana. Contra essa dupla consequência das crenças gnósticas, que destruía por completo o sentido do cristianismo, os Padres, e especialmente Santo Irineu, responderam afirmando, primeiro, que Jesus Cristo não era de modo algum um intermediário criado, mas verdadeiramente Deus, e que nele somos unidos ao próprio Deus. Afirmaram também que o único meio dessa união é um fato histórico: a Encarnação de Jesus Cristo no seio da Virgem Maria. Daí Irineu formular a doutrina da sucessão apostólica, cuja parte na realização de nossa união com o próprio Deus tem importância singular, tal como a Encarnação histórica. Como o lago, que é a Igreja, possui uma única fonte para toda a água que contém, e como essa Fonte surgiu num momento determinado do tempo e do espaço, era necessário um canal contínuo para transmitir os sacramentos, a sucessão sacerdotal para celebrá-los e a graça da verdade salvaguardada pelo sacerdócio. É essa a doutrina da apostolicidade, marca essencial da constituição do governo da Igreja, tal como a expõe a teologia católica; e só essa é a verdadeira interpretação da função mediadora do sacerdócio e da hierarquia."
— Yves Congar. Cristo, Nossa Senhora e a Igreja. Cap. I.
"No caso do marxismo, tal como se pretende utilizar na conjuntura de que falamos, tanto mais se impõe a crítica prévia, quanto o pensamento de Marx constitui uma concepção totalizante do mundo, na qual numerosos dados de observação e de análise descritiva são integrados numa estrutura filosófico-ideológica, que determina a significação e a importância relativa que se lhes atribui. Os a priori ideológicos são pressupostos para a leitura da realidade social. Assim, a dissociação dos elementos heterogéneos que compõem este amálgama epistemologicamente híbrido torna-se impossível, de modo que, acreditando aceitar somente o que se apresenta como análise, se é forçado a aceitar, ao mesmo tempo, a ideologia. Por isso não é raro que sejam os aspectos ideológicos que predominem nos empréstimos que diversos « teólogos da libertação » pedem aos autores marxistas."
- Libertatis nuntius. 1984.
"A aspiração pela justiça e pelo reconhecimento efetivo da dignidade de cada ser humano, como qualquer outra aspiração profunda, exige ser esclarecida e orientada.
Com efeito, é um dever usar de discernimento acerca das expressões, teóricas e práticas, desta aspiração. Pois existem numerosos movimentos políticos e sociais que se apresentam como porta-vozes autênticos da aspiração dos pobres e como habilitados, mesmo com o recurso a meios violentos, a realizar as transformações radicais que poriam fim à opressão e à miséria do povo.
Deste modo, a aspiração pela justiça encontra-se muitas vezes prisioneira de ideologias que ocultam ou pervertem o seu sentido, propondo à luta dos povos para a sua libertação objetivos que se opõem à verdadeira finalidade da vida humana e pregando meios de ação que implicam o recurso sistemático à violência, contrários a uma ética que respeite as pessoas.
A interpretação dos sinais dos tempos à luz do Evangelho exige pois que se perscrute o sentido da aspiração profunda dos povos pela justiça, mas, ao mesmo tempo, que se examinem, com um discernimento crítico, as expressões teóricas e práticas que são componentes desta aspiração."
- Libertatis nuntius. 1984.
"A Igreja cumpre, ainda mais perfeitamente que São João Batista, a tarefa dos profetas, proclamando a vinda de Cristo e de seu Reino e dirigindo a ele nossa fé. Tem, porém, uma tarefa ainda maior que a proclamação, e os sacramentos são muito mais do que meros sinais de fé. Pois o Senhor e sua salvação não estão simplesmente a caminho: já vieram, verdadeiramente. A vida da graça foi dada, e a obra da Igreja, ao contrário da sinagoga nesse aspecto, é transmiti-la a nós por meio dos sacramentos dos quais é guardiã e dispensadora."
- Yves Congar. Cristo, Nossa Senhora e a Igreja. Cap. I.
Para Yves Congar, em seu livro Cristo, Nossa Senhora e a Igreja, apesar de ser dito nas conferências ecumênicas que católicos e protestantes são um na fé em Nosso Senhor Jesus Cristo, as divergências entre ambos quanto à Igreja e a Nossa Senhora estão fundamentadas numa divergência sobre o próprio Senhor ou, ao menos, numa diferença quanto ao ponto de partida de suas maneiras de considerá-lo. Podem até acreditar no mesmo Jesus, mas não raras vezes o consideram de modo diferente e, por conta disso, não chegam ao mesmo pensamento quanto às demais questões que fluem do próprio Cristo.
Esse texto de Tresmontant me faz recordar de um outro texto, de Joseph Ratzinger. Tanto Tresmontant quanto Ratzinger fazem críticas à determinados aspectos do marxismo a partir de sua influência hegeliana, embora, no caso das duas citações aqui apresentadas, concentrem-se em pontos diferentes. A crítica de Tresmontant concentra-se na influência de Hegel sobre a filosofia da história do marxismo, sendo o pensamento hegeliano uma de suas origens. Joseph Ratzinger, por sua vez, também critica o marxismo a partir da exposição de como este foi influenciado pela filosofia hegeliana, mas, na citação em específico, concentra-se na concepção marxista da relação entre a verdade e o processo histórico, analisando como a influência hegeliana na relação entre ser e tempo contribui para uma concepção da verdade subordinada ao devir histórico e à transformação revolucionária. Eis o texto de Ratzinger:
"Ressurge hoje o antigo problema do ser e do tempo dos eleatas, também presente em Platão e Aristóteles, e resolvido quase exclusivamente em favor do ser. Talvez a cesura decisiva esteja em Hegel. A partir dele, ser e tempo se entrelaçam e se interpenetram cada vez mais no pensamento filosófico. O ser é agora tempo. O logos chega a ser ele mesmo na história. Não pode, portanto, estabelecer-se em um ponto concreto da história, nem pode ser contemplado como supra-histórico, como sendo-existindo em si mesmo. Todas as suas objetivações históricas são apenas instantes na totalidade de si mesmo.
Daqui derivam duas posições contrapostas. Por um lado, surge a filosofia da história das ideias, que torna possível uma reconciliação geral: tudo o que foi pensado até agora tem sentido enquanto instante da totalidade; pode ser compreendido e inserido como um momento na autoconstrução do logos. Nessa perspectiva, tanto a interpretação católica quanto a protestante do cristianismo têm — cada uma em seu lugar — sua importância, são verdadeiras em sua época histórica, mas só continuam sendo verdadeiras quando, chegado o ponto final de sua época, são abandonadas e inseridas no todo, que está em processo de nova formação. A verdade é função do tempo. O verdadeiro não é simplesmente verdadeiro, porque tampouco a verdade simplesmente é. É verdadeiro em e por um tempo, porque pertence ao devir da verdade, que é enquanto devém. Isso significa também, obviamente, que se tornam difusos os contornos entre o verdadeiro e o não verdadeiro. Mas significa, sobretudo, que deve modificar-se a atitude básica do homem em relação à verdade e em relação a si mesmo. Sob esse ponto de vista, a fidelidade à verdade de ontem consiste em abandoná-la, em «superá-la», elevando-a à verdade de hoje. Superar é a forma de conservar. O que era constitutivo ontem só permanece hoje enquanto superado.
No âmbito do pensamento marxista, aquilo que poderíamos qualificar como ideologia da reconciliação passa a ser uma ideologia da revolução: superar é transformar. A ideia da continuidade do ser enquanto o tempo passa é agora contemplada como superestrutura ideológica condicionada por interesses que são favorecidos pelo estabelecido. Essa ideia é, portanto, reacionária, porque se opõe à lógica da história, uma lógica que exige progresso e que proíbe apegar-se à situação dada. A ideia da verdade fica, pois, reduzida a ser expressão dos interesses de domínio. Seu lugar é ocupado pela ideia do progresso. É verdadeiro aquilo que serve ao progresso, isto é, à lógica da história. O conceito de verdade é herdado, de um lado, pelo interesse e, de outro, pelo progresso. O «verdadeiro», isto é, aquilo que se acomoda à lógica da história, deve ser submetido a novo questionamento a cada novo progresso histórico, porque aquilo que se estabelece como verdadeiro para sempre está justamente em contradição com a lógica da história, é um permanente interesse de domínio."
— Joseph Ratzinger. Teoria dos princípios teológicos. Parte primeira, capítulo 1, seção 1, item 1.1.1.1.
Claude Tresmontant sobre a filosofia hegeliana:
“Marx inspirou-se nos temas que se encontram no Phe-nomenologie de l'Esprit e na Philosophie de la Religion de
Hegel. Esses temas gnósticos e teosóficos tiveram, aliás, outra descendência horrível.
A filosofia hegeliana valoriza a guerra, faz da guerra o momento necessário à aventura do Deus que se encarna na História. É inútil salientar o quanto são anticristãos esses temas fundamentais da filosofia hegeliana.
Poucas filosofias são mais anticristãs do que a filosofia de Hegel. A valorização trágica da guerra, necessária ao processo teogônico (a negatividade, diz Hegel, não é alheia à essência divina, o mal é necessário à vida de Deus: sem o mal, a vida de Deus seria monótona platitude), esta valorização mítica e estética da tragédia e da guerra deu um fruto que foi o nazismo, que é também uma ideologia alimentada por temas teosóficos, como o provam estudos recentes. Tanto o antisemitismo como o paganismo básico do nazismo, a cosmogonia mitológica, foram inspirados em velhos temas gnósticos que os doutrinários do nazismo endossaram. O gôsto pela tragédia em Hitler, como em Nero, tem um caráter típico e doentio. A tragédia da história para a qual o Führer contribuiu, massacrando dezenas de milhares de homens, lhe dá satisfações estéticas e wagnerianas. Em Hegel, encontramos os temas que prefiguram êsse pantragismo, êsse panteísmo trágico que fascinou tanto a alma alemã.”
— Claude Tresmontant. Marxismo e Cristianismo.
Claude Tresmontant sobre a filosofia hegeliana:
“Marx inspirou-se nos temas que se encontram no Phe-nomenologie de l'Esprit e na Philosophie de la Religion de
Hegel. Esses temas gnósticos e teosóficos tiveram, aliás, outra descendência horrível.
A filosofia hegeliana valoriza a guerra, faz da guerra o momento necessário à aventura do Deus que se encarna na História. É inútil salientar o quanto são anticristãos esses temas fundamentais da filosofia hegeliana.
Poucas filosofias são mais anticristãs do que a filosofia de Hegel. A valorização trágica da guerra, necessária ao processo teogônico (a negatividade, diz Hegel, não é alheia à essência divina, o mal é necessário à vida de Deus: sem o mal, a vida de Deus seria monótona platitude), esta valorização mítica e estética da tragédia e da guerra deu um fruto que foi o nazismo, que é também uma ideologia alimentada por temas teosóficos, como o provam estudos recentes. Tanto o antisemitismo como o paganismo básico do nazismo, a cosmogonia mitológica, foram inspirados em velhos temas gnósticos que os doutrinários do nazismo endossaram. O gôsto pela tragédia em Hitler, como em Nero, tem um caráter típico e doentio. A tragédia da história para a qual o Führer contribuiu, massacrando dezenas de milhares de homens, lhe dá satisfações estéticas e wagnerianas. Em Hegel, encontramos os temas que prefiguram êsse pantragismo, êsse panteísmo trágico que fascinou tanto a alma alemã.”
— Claude Tresmontant. Marxismo e Cristianismo.
"A Igreja tem uma experiência contínua de heresias e, por conseguinte, de cismas. Nos tempos modernos, porém, os conflitos que elas geram parecem apresentar um aspecto diferente do das antigas heresias. Já não se trata apenas de erro ou negação dirigidos à formulação objetiva de um dogma: mesmo quando se compartilha uma formulação, as diferenças sobre o sentido das doutrinas assim professadas são frequentemente levadas até a contradição. As principais divergências modernas tendem a repousar em interpretações distintas do cristianismo como um todo, especialmente em sua relação com a humanidade. Essas interpretações se tornaram antagonismos no interior da consciência cristã, mesmo onde há unanimidade na confissão da vinda do Verbo feito carne e no reconhecimento de Jesus Cristo como verdadeiro Deus e verdadeiro homem. É por isso, por exemplo, que se encontraram, e ainda se encontram, ortodoxos, especialmente os de inclinação eslavófila, que veem no sentido de uma doutrina razões para uma hostilidade irreconciliável ao catolicismo, mesmo quando as definições dogmáticas permitiriam uma completa unidade de fé. Um espírito cismático no sentido mais estrito da palavra parece ter sido diabolicamente inspirado no homem moderno: busca oposição e diferença por todos os meios possíveis e assim transforma justamente aquilo que poderia ser compartilhado com outros em espírito de unidade num motivo de antagonismo, em vez de conservar em comum o que é essencial e tratar com respeito as questões de opinião."
- Yves Congar. Cristo, Nossa Senhora e a Igreja. Cap. I.
“Que a humanidade se tenha tornado criminosa, eis um fato de experiência e um fato de história. Por mais longe que remontemos na história humana, podemos constatar que o homem é um animal que massacra, que tortura, que escraviza, que oprime, que avilta o homem, seu irmão. A diferença entre a humanidade do tempo dos reis de Ur, da Assíria ou da Babilônia e nós consiste simplesmente em que dispomos, para massacrar, para torturar, para aviltar e embrutecer os homens, de meios técnicos mais poderosos. Salvo esse detalhe, não há diferença notável, substancial, do ponto de vista da crueldade, entre o homem de hoje e o homem do tempo de Sargão de Akkad ou de Hamurábi. — Há, no entanto, uma pequeníssima nuance: as nações ditas civilizadas ou pretensamente civilizadas que praticam hoje a tortura nas salas de polícia, nos porões ou nos escritórios se julgam obrigadas a se esconder e a mentir quando são acusadas dessas práticas. Não que tenham vergonha, — seria pedir demais, — mas isso já não é admitido no concerto das nações, em teoria. É a única diferença que conseguimos perceber.
Outra diferença, entretanto, que se pode observar é que outrora os homens eram os principais artífices dos massacres. As mulheres eram nitidamente menos dadas a massacrar. Hoje, sobretudo nas nações ditas civilizadas, as mulheres reivindicam a liberdade de matar seus próprios filhos antes do nascimento. Esse fenômeno, em grande escala, também é novo.
A experiência mostra, portanto, que a humanidade é criminosa por mais longe que remontemos em sua história.
[...]
A criança que nasce hoje numa nação que se pretende civilizada ou em outra, se ainda restam, nasce, portanto, numa humanidade mais criminosa do que jamais foi. Nunca a humanidade massacrou e torturou tanto quanto no século XX e, como todos sabem, as nações que se dizem civilizadas se preparam ativamente, com energia, zelo e grandes despesas, para se massacrar umas às outras de maneira decisiva e definitiva. Toda Ave dos céus, todo animal dos campos e todo ser rastejante, como diz a Bíblia, desaparecerá com o próximo massacre.”
— Claude Tresmontant. Os Primeiros Elementos da Teologia. Cap. V.


















